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sábado, 29 de setembro de 2012

SE O MEU STF TOCASSE...


I – Barbosa, Beethoven, Lewandowski, Liszt, Fux e Barenboim.
Beethoven
Joaquim Barbosa, mineiro de Paracatu e relator da Ação Penal 470, vulgo “mensalão”, toca piano e violino. Poderia ser Mozart, com esse duplo talento, mas seu gênio caudaloso e minucioso o aproxima mais de Beethoven. Fosse maestro, pela pompa, circunstância e serenidade, um Eleazar de Carvalho.






Liszt
O carioca Lewandowski, revisor, teria mais a ver com Haydn e Mozart e suas terminações femininas, resolvendo as dissonâncias no tempo forte. Como regente, seria preciso e econômico na interpretação, como George Solti conduzindo clássicos. Com o visual de hoje, o revisor lembra o virtuose Franz Liszt, mas seus votos no “mensalão” fazem contraponto renascentista sobre o cantus firmus de Barbosa.
Barenboim
Luiz Fux, carioca como Lewandowski, lembra o maestro Daniel Barenboim quando jovem: topete saliente, batuta segura. No popular, Elvis Presley, talvez, mas nada de Love me Tender, Love me Sweet... mas quem sabe outro sucesso, Jailhouse Rock (“Rock da Cadeia” – veja ao final da postagem). O voto de Fux sempre carrega em algum lugar o elemento surpresa, que ora pode ser uma cadência frígia – que termina meio tom acima do principal -, ora uma cadência plagal, que vem por baixo, fazendo a subdominante “emergir” na tonalidade principal.

II – Cármen Lúcia, Karajan, Celso de Mello e Schönberg.



O semblante da mineira Cármen Lúcia pode parecer amargurado, mas revela também a paciência e sabedoria das boas avós. Prefere votar de cor, e com seus cabelos naturalmente grisalhos, poderia ser um regente como Herbert Von Karajan: controle absoluto da música na cabeça, e doce mesmo ao dar uma sentença amarga. Quando escreve sobre servidores públicos, lembra Haydn e seus funcionários - mas não obedece ao príncipe como o compositor.
Toscanini
Schönberg
O tatuiano Celso de Mello, o mais antigo na corte, se fosse regente com certeza seria Toscanini: fiel à letra da partitura, faz uma leitura distanciada, quase que desprovida de emoção pessoal. A fidelidade ao texto era marca registrada do maestro italiano, que comungava com o ministro grande erudição. Se cantor popular, Mello seguramente seria um João Gilberto, aquela batida discreta no violão, a voz sem grandes ondulações e alterações de volume. Como compositor, talvez fosse Schönberg, pai do dodecafonismo, criando sobre regras bem definidas e matematicamente calculadas. 

III – Marco Aurélio, Eleazar, Rosa e Carl Maria Von Weber.

Eleazar de Carvalho
O Max de Weber,por Louis Gentille

Marco Aurélio de Mello, também carioca da gema, talvez o mais sorridente da corte, lembra o maestro Eleazar de Carvalho com suas as “polainas” brancas nos cabelos. Mas sua regência seria mais emocional, com certa ginga, como Leonard Berstein. Bom carioca, o jeito calmo de falar, cantaria com a voz meio grave do Tom Jobim, entre o cool e o apaixonado, se é que é possível. Já a gaúcha Rosa Weber tirou a sorte grande musical já no nome: Constanze Weber, paixão eterna de Mozart, ou ainda Carl Maria Von Weber, que brilhou na transição do classicismo para o  romantismo. Mas Rosa não tem nada a ver com a ópera “O Franco-atirador” (Der Freischütz) de Weber, drama em que Max dispara sete balas, sem saber que uma pertence ao diabo. Na teoria musical, ela seria a cadência de engano, que ao invés de resolver na tônica, acorde principal, vai para a chamada relativa menor, frustrando os que apostavam em uma suposta parcialidade em vista de sua recente nomeação pela Presidente.  Enganaram-se os que acreditavam na cadência que julgaram mais óbvia, mas persiste em alguns votos a relativa menor. 

IV – Britto, Mazur, Toffoli e Silvio Silva Jr.


Ayres Britto, sergipano presidente da Casa, traz no rosto a segurança do sertanejo, pois, como bem lembrou Euclides da Cunha em seu “Os Sertões”, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.  Ao dirigir a mais alta corte do país, rege com a precisão e a determinação de Kurt Mazur, gestos precisos e econômicos, conduzindo o ritmo com a rédea curta. Cantor, seria talvez um Zé Ramalho, lembrando suas raízes nordestinas, mas com a argúcia sizuda de um Renato Russo.
Stan Getz
Já Dias Toffoli, paulista, é um novato com menor domínio da partitura, um artista antes desconhecido; talvez na MPB fosse o Silvio Silva Jr. Mas quem é Silvio? Ora, você não sabia? Mas a música dele você conhece. Silvio foi parceiro de Aldir Blanc em “Amigo é pra essas coisas”. “Muito obrigado, amigo / - não tem de quê / - por você ter me ouvido / - amigo é pra essas coisas (...) / - sua amizade basta / - pode faltar / - o apreço não tem preço...”  Ou seria um Stan Getz, aquele saxofonista americano de improvisos econômicos, calculados, um “cool jazz” nada emocional. Mas também tem suas surpresas, não é uma partitura 100% previsível. No solo de clarineta meio monocórdico (monocórdio: instrumento de uma corda só criado na Grécia antiga), tenta afinar com o violino spalla (Lewandowski). [Veja e ouça abaixo “Amigo é pra essas coisas, de Silvio Silva Jr. e Aldir Blanc, pelo MPB4]

V – Gilmar Mendes, Brahms e Diego & Diogo.

Joahannes Brahms

Gilmar Mendes, matogrossense de raiz, estudioso do código civil, seria um compositor que escreve com uma pena mais dura, de melodia sofrida, como foi sua aprovação para o STF, que logrou obter após 16 votos a 6 na comissão do Senado. Seria talvez Johannes Brahms, que levou 10 anos para terminar sua 1ª Sinfonia, mas deixou-a para a história. Na época da indicação de Mendes, o jurista Dalmo Dallari publicou um artigo na Folha de São Paulo que levou o ministro (sem sucesso) a mover-lhe uma ação penal. E pensando in dubio pro reo (“na dúvida, para o réu”) Mendes ficaria bem com uma dupla de conterrâneos dele lá de Cuiabá, Diego & Diogo, autores de “Sem Defesa” e “Perdoa”.  

domingo, 23 de setembro de 2012

O SOM NOSSO DE CADA DIA

Pau Casals
I – “TECENDO A MANHÔ.
Não resisto a esse título de um poema de João Cabral. Acordo às 6h30, os peões da obra em frente à minha casa já falando alto. Estranho costume esse, de se conversar à distância, ou de um lado do balcão da padaria para o lado onde se senta um outro. Às 7h, os peões ligam o rádio, e saio às vezes com a boa e velha moda de viola, em outras aquele estilo mais “brega chic” de sertanejo. Ligo o carro e com ele um de meus muitos CDs de violoncelo, hoje a primeira das seis suítes de Bach para o instrumento, que alterno entre dois mitos: Pau Casals e Jacqueline Du Pré. (Quando ouço música por livre escolha, sou muito seletivo, só gosto do “crème de la crème”, como dizem os franceses).

II – “SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI” E O BANDONÉON.



"Seja Marginal, seja herói"
(Agora o subtítulo é uma citação de um trabalho do artista plástico Hélio Oiticica). Infelizmente (ou felizmente, pois não moro em metrópole), dura pouco o meu trajeto: de casa até o trabalho, chego em coisa de seis, sete minutos. Para variar, talvez um pouco de Dave Brubeck, um jazz inteligente com aqueles compassos que balançam a gente confundindo o tempo forte, o nosso “chão”. Tendo ido a São Paulo ontem, para uma gravação na TV UOL, poderia ter ouvido a integral daquelas 6 suítes, sendo que as três primeiras na rodovia Castelo Branco até a Marginal e o restante... até chegar na Av. Paulista! Mas isso não é exatamente o que eu posso chamar de deliciosa fruição musical: o sofrimento na Marginal é de amargar.
Voltemos a Tatuí. Como minha sala fica a poucos metros do pessoal da técnica do Teatro Procópio Ferreira, o som dos ensaios frequentemente “vaza”, o que me faz levantar para ouvir a Banda Sinfônica executar ora um trecho de Petruchka, de Stravisnky, ora um ensaio de tango, com direito à passagem de palco de dançarinos - essa dança sensual e sinuosa de nossos hermanos argentinos. Volto à sala, ao lado do computador está meu “Dicionário de Termos e Expressões da Música” (Ed. 34); abro no verbete “tango” e lembro que o ritmo deve sua origem a uma dança da província espanhola de Andaluzia, tendo chegado à Argentina durante a Primeira Grande Guerra. Torno a olhar o ensaio de cima do “aquário” (de onde os técnicos operam suas maravilhosas engenhocas de última geração). Ouço um bandonéon, que é a cara do tango: um instrumento de fole, mas sem as teclas com jeito de piano do nosso acordeão. Apenas botões, muitos botões em ambos os lados, dificílimo para se dominar. Mas que lindo som! Veja e ouça abaixo o “rei do bandonéon”, Astor Piazzolla, tocando “Fracanapa”:

III – HORA DE ALMOÇAR! “TAKE FIVE” E “CHICLETE COM BANANA”!


Hora do almoço, no caminho talvez mais alguns compassos quebrados do Take Five do Dave Brubeck, o ar condicionado ligado, pois os alto-falantes da campanha eleitoral passam zonzeando como abelhas pela cidade. Em casa, almoçando, o precioso silêncio, pitadas de conversa. Na volta, relaxando, alguma coisa bonita como o primeiro movimento do Concerto para Violoncelo de Elgar - claro, com a insuperável Jacqueline Du Pré. No trabalho, alguma pesquisa no Youtube, essa ferramenta maravilhosa da Internet às vezes necessária, mesmo que com prejuízo da qualidade do som. Na Rádio Cultura FM, ouço às 11h das terças minhas entrevistas com músicos como Emmanuele Baldini e Pedro Gadelha, violino e contrabaixo solistas da OSESP, Renato Bandel, um violista que é sinônimo de excelência no país, e André Micheletti, violoncelista da última geração que considero uma grande promessa de solista de ponta no Brasil. E toma música. Veja e ouça abaixo o Dave Brubeck Quartet tocando “Take Five”, em uma lendária gravação de 1964:

Big Band do Conservatório de Tatuí - foto: Kazuo Watanabe
Enfim, voltemos à rotina do Conservatório. Vou ao banheiro, e para isso tenho de passar pela sala dos técnicos, de onde eles operam spots e a mesa de som responsável pela distribuição e mixagem de microfones e captadores. A Big Band do Conservatório de Tatuí ensaia um belo standard, e por alguns minutos me deixo cativar por uma inspirada improvisação ao piano de um excelente aluno, aliás, um verdadeiro profissional chamado Oscar Alejandro. (Explicando: standards, em inglês, são as músicas consagradas do jazz). O jovem Oscar improvisou um chorus com um suingue que só os latinos sabem levar. (Chorus, voltando ao dicionário, é a estrutura harmônica - sequência de acordes, para simplificar -  de um tema qualquer, sobre a qual o músico improvisa). Mais um pouco, e a Big Band ataca “Estamos Aí”, samba corrido com jeito de bebop do grande gaitista Maurício Einhorn, belo convite a improvisos rápidos. (Jackson do Pandeiro gravou um samba-xote corrido com jeito de bebop, “Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho: “Só ponho bebop no meu samba /quando o Tio Sam pegar no tamborim / quando ele pegar no pandeiro / quando ele entender / que o samba não é rumba / aí, eu vou misturar / Miami com Copacabana / chicletes eu misturo com banana / e o meu samba vai ficar assim”). Veja e ouça abaixo Jackson do Pandeiro cantando “Chiclete com Banana”, de Gordurinha e Almira Castilho:

IV – O GRITO, O CÁLICE DE CHICO E O COBERTOR DO SILÊNCIO.

"O Grito", de Münch

Em casa, tarde da noite, já embalado por um Mozart para dormir, cubro-me com o silêncio mais profundo, o velho e bom silêncio. (E não aquele do Chico Buarque do passado: “Esse silêncio todo me atordoa / e atordoado permaneço atento / (...) na arquibancada pra’a qualquer momento / ver emergir o monstro da lagoa”. O “monstro da lagoa” era o fantasma da repressão nos anos de chumbo, e o silêncio de Chico, o pavor, como naquela bela pintura de Münch, “O Grito” - e que grito absolutamente silencioso! “Cai a noite, cai o silêncio”, disse o poeta. Não, não, não. Entrecortando músicas, o silêncio não cai – pelo contrário, levita. Estamos na “Capital da Música”!)
[Veja e ouça o “Cálice” de Chico e Milton:]

domingo, 16 de setembro de 2012

Jacqueline e Daniel: “Tudo está relacionado - o poder da música”

I – Nascimento, alegria e sofrimento de Daniel.
Daniel adolescente
Daniel Barenboim foi um típico menino prodígio. Nascido em 1942, em Buenos Aires, filho de pais judeus russos ashkenazi, iniciou-se no piano com sua mãe aos cinco anos de idade. Já aos sete, apresentou seu primeiro recital como solista. Passou a estudar com o pai, e, aos dez anos, mudou-se com a família para Israel, que havia sido fundada apenas três anos antes.
Daniel com sua orquestra de jovens judeus e árabes palestinos

Cosmopolita, Daniel possui nada menos do que quatro nacionalidades: argentina, espanhola, israelita - e palestina. Como regente, divide seu tempo entre grandes orquestras como a Filarmônica de Berlim, a Vienna Musikvereine e a Staatskapelle. Incansável defensor da paz, escreveu três livros, todos imersos em música e filosofia - esta última, área em que transita com razoável facilidade, leitor versado que é, além de imbuído de uma inteligência muito acima da média. Antes de sua luta como pacificador, há que se lembrar uma fase de intensa alegria, destruída em pouco tempo por um profundo sofrimento que lhe dilacerou o coração.